Exercício Autorretrato sem adjetivos
Autorretrato
Nasceu, mas não foi em agosto como se planejava.
Nunca foi jornalista, nem bailarina, nem veterinária.
Nunca voltou a praticar balé.
Escolheu estudar algo diferente de Estudos Latino-Americanos e Sociologia.
Nunca conseguiu tocar Para Elisa depois da morte de seu avô.
Nunca teve filhos nem marido.
Ninguém chamou ela de companheira.
Nunca zarpou num barco para Gaza.
Nunca conseguiu vestir o suéter vermelho que tanto desejava.
De tantos que tinha, nunca publicou seus textos.
Nunca voltou a assistir Antes do Pôr do Sol.
Nunca soube dirigir.
Nunca competiu com seu pai para ver se, depois de tantos anos, lograva
vencê-lo ao correr.
Nunca levou Patas à praia.
Nunca leu a metáfora da figueira por si mesma, nem os diários de escritoras,
nem o livro de Riquer que V lhe regalou.
Nunca escreveu aquele livro com sua mãe.
Nunca teve a vida de cientista para a qual foi treinada.
Nunca pôde converter a fotografia em mais que uma exploração.
Nunca lhe apeteceu uma cerveja.
Nunca pôde olhar mosaicos suficientes para dizer que colecionava lembranças
daquilos.
Nunca conheceu sua escritora favorita.
Nunca recuperou aquelas fotografias da Colômbia.
Nunca fez aquela viagem com suas amigas.Nunca pôde escutar sua canção ao vivo.
Jamais escreveu o ensaio da vergonha que tanto quis, e isso, segundo conta, fez
com que não passasse um dia sem senti-la.
Nunca acabou o óleo da casa de Michoacán.
Nunca voltou a ver L depois de sua partida pra Alemanha.
Nunca cantou Lisboa com B.
Nunca foi a tia das filhas de suas melhores amigas,
nem a dama de honra de tantas bodas prometidas na sua juventude.
Nunca foi a semana toda à academia,
nem correu os 10 km com os amigos de inglês.
Nunca compartilhou as descobertas de seu projeto de investigação.
Nunca se considerou especialmente engraçada nem quis compartilhar seus
pensamentos sobre sua própria beleza.
Nunca conseguiu acordar cedo por mais de uma semana.
Depois do piano, o plano era tocar o violino; nunca o fez.
Nunca fumou (não realmente).
Jamais pôde se considerar organizada.
Nunca abriu sua cafeteria.
Sua coleção de xícaras ficou truncada.
Desde seu último jogo no início da universidade, nunca mais teve uma partida
de basquete.
Talvez nunca recuperou toda a confiança em seu relacionamento mais próximo,
nunca soube.
Jamais chegaram aqueles cravos vermelhos que desejava e nunca pediu.
Nunca se sentiu cômoda no mar.
Nunca saltou de paraquedas.
A oficina de journaling, diários e escrita com M nunca existiu.
Nunca acabou uma bebida quente antes de esfriar.
Nunca sentiu certeza na hora de falar inglês e português.
Nunca teve o costume de poupar.
Jamais aprendeu a cozinhar arroz.
Nunca pôde se nomear filósofa.
Nunca fez as pazes com B e N.
Nunca esqueceu sua tartaruga.
Seu cabelo nunca deixou de cair.
Nunca desfrutou do frango, não completamente.
Seu desejo de adotar um bassê ficou sempre em seu imaginário.Seu corpo, embora tenha tentado não fazê-lo, foi sempre concebido como seu
próprio projeto: algum dia, daqui a pouco, já quase…
Nunca subiu ao ringue para fazer sparring com E.
Nem pôde entrevistar pessoalmente seu referente científico-acadêmico.
Nunca cumpriu o juramento de se formar acompanhada de A.
Nunca esqueceu as expectativas dos outros.
E nunca,
mas nunca,
esta lista acabou.
Autorretrato
Nació, pero no fue en agosto como se esperaba.
Nunca fue periodista, ni bailarina, ni veterinaria.
Nunca volvió a practicar ballet.
Escogió estudiar algo diferente a Estudios Latinoamericanos y Sociología
Nunca consiguió tocar Para Elisa después de la muerte de su abuelo.
Nunca tuvo hijos ni marido.
Nadie la llamó de compañera.
Nunca zarpó en un barco para Gaza.
Nunca consiguió vestir el suéter rojo que tanto quería.
De tantos que tenía, nunca publicó sus textos.
Nunca volvió a ver Antes del Amancer.
Nunca supo manejar.
Nunca compitió con su papá para ver si, después de tantos años, lograba
vencerlo al correr.
Nunca llevó a Patas a la playa.
Nunca leyó la metáfora de la higuera por sí misma, ni los diarios de escritoras,
ni el libro de Riquer que V le regaló.
Nunca escribió aquel libro con su mamá.
Nunca tuvo la vida de científica para la cual fue entrenada.
Nunca pudo convertir la fotografía en más que una exploración.
Nunca se le antojó una cerveza.Nunca pudo ver los suficientes mosaicos para decir que coleccionaba recuerdos
de ellos.
Nunca conoció a su escritora favorita.
Nunca recuperó esas fotos de Colombia.
Nunca hizo ese viaje con sus amigas.
Nunca pudo escuchar su canción en vivo.
Jamás escribió el ensayo de la vergüenza que tanto quiso, y eso, según cuenta,
hizo que nunca pasara un día sin sentirla.
Nunca acabó el óleo de la casa de Michoacán.
Nunca volvió a ver a L después de su partida a Alemania.
Nunca cantó Lisboa con B.
Nunca fue la tía de las hijas de sus mejores amigas,
ni la dama de honor de tantas bodas prometidas en su juventud.
Nunca fue una semana completa al gimnasio,
ni corrió los 10km con sus amigos de inglés.
Nunca compartió los hallazgos de su proyecto de investigación.
Nunca se consideró especialmente graciosa y tampoco quiso compartir los
pensamientos sobre su propia belleza.
Nunca consiguió despertarse temprano más de una semana.
Después del piano, el plan era tocar el violín. Nunca lo hizo.
Nunca fumó, no realmente.
Jamás pudo considerarse organizada.
Nunca abrió su cafetería.
Su colección de tazas se quedó incompleta.
Desde su último juego al inicio de la universidad, nunca más tuvo un partido de
basketball.
Tal vez nunca recuperó toda la confianza en su vínculo más próximo, nunca lo
supo.
Jamás llegaron esos claveles rojos que anhelaba mas nunca pidió.
Nunca se sintió cómoda en el mar.
Nunca se aventó del paracaídas.
El taller de journaling, diarios y escritura con M nunca existió.
Nunca se acabó una bebida caliente antes de que se enfriara.
Nunca se sintió segura a la hora de conversar en inglés o portugués.
Nunca tuvo la costumbre de ahorrar.
Jamás aprendió a cocinar arroz.
Nunca pudo nombrarse filósofa.Nunca hizo las pases con B y N.
Nunca olvidó a su tortuga.
Su cabello nunca dejó de caerse.
Nunca disfrutó el pollo, no completamente.
Su deseo de adoptar un winnie siempre quedó en su imaginario.
Su cuerpo, aunque intentó no hacerlo, fue siempre concebido como su propio
proyecto: algún día, en poco tiempo, ya casi…
Nunca se subió al ring para hacer sparring con E.
Tampoco pudo entrevistar personalmente a su referente científico-académico.
Nunca se cumplió la promesa de titularse acompañada de A.
Nunca olvidó las expectativas de los demás.
Y nunca,
pero nunca,
esta lista acabó.
