Jorge Vicente

1.

vou perdendo as águas

gota por gota,

árduo nascimento de lento amanhecer,

luz solar

luz debaixo da pele

luz valiosa de canto e promessa

[todo o silêncio é precioso,

mas guardas sempre na madrugada

a seiva e a semente.

2.

tudo cabe nessa liberdade

nessa alegria sem chão

nessas águas talvez ferozes

talvez com deuses claros,

ouço com rezo subterrâneo e mineral

levadas e rios e  veias saudando sóis,

ouço com escamas baixas

e riso alto

poemas e tempestades.

frutas bosques canais de água

e saliva

fronteiras e marés e deuses salpicados

de algas

[ouço tudo o que atravessa e nasce,

tudo é canto  estendendo a clorofila.

3.

tudo começa e nada se desfaz,

nem amor nem ventos marítimos

nem areias interiores movidas pelas águas,

tudo é novidade e intimidação

escrita sigilosa e agreste

língua selvagem com borboletas primitivas,

tudo é aquilo que sabes

e dizes

e ousas transcender

tudo é linguagem e desalinho

sorriso imanente

de verbo cansado,

porque imanente é o que trazes e carregas

e que morre todos os dias

em ventos de primavera.

Jorge Vicente nasceu em 1974, em Lisboa, e desde cedo se interessou por poesia. Com Mestrado em Ciências Documentais, tem poemas publicados em diversas antologias literárias e revistas. Faz parte da direcção editorial da revista online Incomunidade. Tem seis livros publicados, sendo o último Os ventos e as marchas (Urutau: 2025).