Israel Campos: O leão do amor (Conto inédito)

O Leão do Amor

Israel Campos

Naquele dia eu tive mesmo pressa de chegar à casa. Para nós, os guleiros das brincadeiras, isso não era nada comum. Nós gostávamos era mesmo de ficar na escola até escurecer, os seguranças a ameaçarem que iam já trancar os portões – o que era quase sempre babete – e o SenhorSepúlveda já bem furioso porque ainda tinha outras tarefas para cumprir. Mas aquele dia foi mesmo diferente. Fui o primeiro a sair da sala de aulas e, ao invés de ainda aproveitar para ir brincar no parque da escola, fui logo para o portão. A professora Arminda ainda admirou quando me viu sentado às escadas à espera do SenhorSepúlveda.

– Njolela, tás doente ou quê? logo tu aqui à espera do motorista…?

– Não, camarada professora. Não estou doente. Estou só à espera do SenhorSepúlveda, mas ele hoje está meio demorado…

– É para sentires o que o pobre do SenhorSepúlveda sente todos os dias, quando fica horas e horas à tua espera…

– Eu não quero sentir nada, professora. Só quero mesmo é chegar já a casa…

As professoras da minha escola gostavam muito de sentir pena do SenhorSepúlveda. Ora lhe chamavam de pobre coitado, ora agitavam para que ele me deixasse dormir na escola. Uma vez até a professora Lourdes, de Estudo do Meio, que gostava bué de queixar bem nos pais, disse na reunião dos alunos que eu não respeitava o trabalho do SenhorSepúlveda. Tudo porque ele costumava esperar  que eu terminasse as brincadeiras de keitó ou escondidas antes de ir para casa. Quando a minha mãe quis já me ralhar, sem saber se aquilo o que diziam era verdade, eu disse que era mentira e o SenhorSepúlveda, que estava ao nosso lado, me apoiou. Eu gostei mesmo bué da atitude dele naquele dia e até fiquei uns dias sem demorar muito para ir embora depois das aulas. O SenhorSepúlveda também já foi criança, adolescente, assim das nossas idades. Ele sabia que brincar depois da escola era parte da beleza da vida. Não há escola sem brincadeira depois das aulas. Ele sabia. Só não dizia.

O Marley ainda quis saber a razão daquela pressa toda. Mas eu sabia que não podia lhe dizer o motivo da minha pressa toda. Eu conhecia bem aquele miúdo. Ou ele duvidaria redondamente do meu motivo ou iria já a correr para contar a toda a escola qual era o tal motivo. Ele não sabia guardar segredos. Eu também não sabia muito bem. Um dia quando ele me contou que o tio dele tinha sido general pela solidariedade anti-imperialista eu contei ao Gideão e ao Marcelo. Mas não era fofoca nem nada; só lhes contei mesmo para saber se eles sabiam quem eram esses tais generais pela solidariedade anti-imperialista. O Marcelo fez silêncio e o Gideão fez já assim uma cara de quem sabe mas não quer dizer.

– Devem ser assim esses generais que se ajudam uns aos outros, conversam mais do que dar tiros… – o Gideão, armado em sabichão, supunha.

– Então acho que devíamos também ser generais pela solidariedade anti-imperialista – o Marcelo propôs, aventureiro.

– Não me importo nada. Assim, podemos fazer revolução com as palavras aqui mesmo na escola e combatemos os males dos mujimbeiros dos vigilantes e professores que não nos deixam brincar depois das aulas… – eu disse.

Rimos todos e depois concordamos. A partir daí passamos a ser conhecidos na escola como  o quartel dos generais pela solidariedade anti-castigos. O Marley só apanhou a dica semanas depois, tinha sido a Petra a perguntar se ele era ou não parte do grupo. O gajo ficou bem furioso comigo porque sabia que eu era a única pessoa que sabia do segredo do tio dele. Mas alguns dias depois fizemos as pazes e ele quis já ser o comandante-em-chefe do nosso quartel anti-castigos. Eu não me opus, era justo até porque foi ele que me ensinou o nome desse tipo de generais da paz. O Marcelo, armado em justiceiro, ainda quis propor eleições mas nós recusamos essa proposta; é que nessa altura já sabíamos todos sobre o resultado desastroso das eleições de 92. Tínhamos falado sobre isso na aula de História com a professora Gaby, que se recusava a ser chamada de Camarada, e que, por isso, chamamos-lhe todos de Cama-professora-Gaby, no gozo. O Gideão e eu tínhamos certeza que isso de eleições só criava mais problemas do que soluções, o nosso próprio país que o diga. O Marley acabou sendo mesmo o comandante-em-chefe, o coordenador das acções pro-brincadeiras e anti-castigos e queixas. Sem eleições, nem democracia.

Quando vi o patrol cinzento do SenhorSepúlveda descer a colina do São José, fui logo, apressado, em direcção ao portão da escola. O senhor Tchocossuma, x9 maior das nossas brincadeiras, era o segurança que estava de serviço. Eu já sabia que se lhe pedisse para sair ele ia negar. Era armado já no mais cumpridor de todas as regras da escola e não deixava ninguém sair sem que o encarregado ou motorista estivesse à porta. Nos dias em que ele estava no portão não conseguíamos sair nem só para comprar um picolé ou uma paracuca nas senhoras cansadas que vendiam essas guloseimas à porta da nossa escola. Para a minha sorte, num dia cheio de azares, o SenhorSepúlveda não tardou para chegar ao portão. Quando me viu, a cara dele ficou assim meio atônita como quem diz: mas isso é azar ou quê, esse miúdo essa hora aqui? Eu ainda quis lhe dizer para não se acostumar com aquilo, mas tinha tanta pressa que a única coisa que fiz foi lhe entregar a minha mochila e lancheira, que ele carregava à contragosto, e pus-me logo a correr para o carro.

– Mas o menino está doente ou algo assim? – o SenhorSepúlveda fez essa pergunta depois de largos minutos de silêncio, onde no carro só se ouvia o Desportivo da Rádio Nacional. Eu estava um bocado apreensivo, tinha mesmo pressa de chegar a casa para contar já o grande motivo ao Joshua mas o trânsito da tarde na Mutamba era de desmotivar qualquer um.

– Não, SenhorSepúlveda, não estou doente. Só não tive mesmo vontade de brincar hoje…

– Mas o menino quer sempre brincar, todos os dias, todas as horas.

– Hoje não, SenhorSepúlveda…

O espanto do SenhorSepúlveda me fez questionar se ele, afinal, não gostava mesmo de me ver nas brincadeiras. Bem que o Marley sempre dizia: esses mais velhos são mesmo assim, criticam, criticam, mas no fundo gostam mesmo. Algo sempre me dizia que o SenhorSepúlveda não era assim um grande agente anti-brincadeiras. O quartel dos generais pela solidariedade anti-castigos já tinha reunido para falar sobre ele – mas não chegamos a nenhum consenso; o Gideão tinha algumas reservas, mas não achava que ele era dos nossos piores inimigos. O Marley achava que ele era muito chato pois queria sempre ameaçar que ia queixar nos nossos pais; o Marcelo sempre calado e eu não queria saber.

O SenhorSepúlveda nunca me falou das brincadeiras da infância dele. Era muito reservado, falava o mínimo dos mínimos – bom dia sim, menino! Sim, chefe, sim, chefe – e as únicas vezes que se exaltava um bocado era quando falava ao telefone com os familiares dele das províncias. Estava sempre a reclamar que eles sempre ligavam, ora para pedir dinheiro, ora para pedir contribuição para casamento ou para óbito. Ele era como se fosse o salvador da família.  Mas algo me dizia que entre aquele olhar sério, seríssimo, e os gestos automáticos – sim, chefe! sim, patrão! – havia também uma infância como essa nossa, uma infância desobediente, infância por ser compreendida.

Quando cheguei ao nosso Prédio, que era o dos Cubanos, encontrei uns miúdos do Prédio do Livro, que eram primos do nosso vizinho-amigo Arilson. Esses primos do Arilson gostavam muito de vir passar as tardes na casa dele. Na hora das brincadeiras dos prédios – que só aconteciam antes dos nossos pais chegarem do trabalho – eles gostavam de instigar rivalidade entre os prédios. Os miúdos do Prédio do Livro eram muito armados, achavam que tinham o melhor prédio de Luanda só porque todo mundo conhecia já esse prédio deles e porque alguns Camaradas importantes do Partido já viveram lá. Mas nós, bem orgulhosos lutaremos pela paz, não baixávamos a cabeça. Gostávamos mesmo de ser do Prédio dos Cubanos, nossos cooperantes que não conhecemos bem, eles a partirem nós a chegarmos no país. Mas ficou a história. O apoio impagável desses hermanos de outro continente a quem devemos tanto, o papá é que costumava dizer isso quando estava já nas conversas nostálgicas desse passado cheio de alinhados, não-alinhados e semi-alinhados, quando a revolução também se fazia com médicos, professores e promessas de futuro.

O Jairo e Artur, primos do Arilson, ainda tentaram meter conversa, sempre com aquele hábito feio da competição entre os prédios.

– Devíamos mesmo fazer um torneio de futebol entre os miúdos dos vários prédios: vocês, dos Cubanos, os do Prédio da Cuca, os do Prédio da Tchetchênia, os do Prédio do Livro, do São Paulo, e nós, os do Prédio do Livro principal, o da Maianga… – Artur, o mais assanhado, começava já com as provocações.

Ainda fiquei um bocado tentado em dizer que sim, que devíamos mesmo fazer esse torneio para acabar já, de uma vez por todas, com a boca deles, até porque o nosso prédio tinha os melhores jogadores. Agilio, Bráulio, Jael, Aurélio, Ricardo e os dois Edsons. Mas depois lembrei que esses miúdos do Prédio do Livro da Maianga eram muito batoteiros; e gostavam de levar a bola deles quando estivessem prestes a perder o jogo. O Jairo ainda disse que nós, os do Prédio dos Cubanos, podíamos escolher o campo para as disputas – e vi já os olhos do primo dele Arilson a brilharem porque ele gostava mesmo de jogar na Cidadela Desportiva – mas eu estava muito apressado para pensar nessas coisas que sempre acabavam em confusão.

***

A dona Marlita, que sabia que eu não gostava nada de iscas com massa branca, fez uma cara estranha quando me viu chegar. Acho que também ela achava estranho eu ter chegado tão cedo à casa num dia normal de aulas. Deve ter comentado sobre isso com o SenhorSepúlveda, como eles gostavam de fazer quando nós não estivéssemos por perto. Logo que atirei a pasta num canto qualquer da sala, desabotoei a bata da escola e fui para o quarto. O Joshua sentia a minha presença mas também gostava de dar tempo ao tempo. Foi com ele que aprendi essas coisas da paciência da vida: cada coisa ao seu tempo, como a minha mãe gostava de me dizer quando partilhasse com ela a ansiedade que tinha de ser homem crescido com voz grossa. O Joshua só costumava aparecer quando o meu batimento cardíaco já estava mais calmo, pulso tranquilo, e aí eu já conseguia falar sem gaguejar nem atropelar as palavras. Mas nesse dia era difícil pôr o coração sossegado. Apesar de não ter brincado na escola, essa coisa que tinha para partilhar com ele me punha ansioso, e era essa ansiedade que mandava nas escolhas do coração. 

Eu sentia pena do Joshua porque ele não podia ir à escola como os meninos da nossa idade. Uma vez, o SenhorSepúlveda já me disse que no bairro dele, que se chamava Paraíso, havia também muitas crianças que não iam à escola. Esses miúdos ficavam só a deambular, a pensar que sonhar é acto de desobediência. Eu achava que todas as crianças do mundo deviam mesmo estudar. Até porque nos acampamentos da Organização de Pioneiros Agostinho Neto, que depois deixaram de existir não sei porquê, falavam sempre que estudar era um acto revolucionário e depois nos punham a dizer Viva o Camarada Guia Imortal!, Viva o Camarada ZéDu!, Viva a revolução! Bons tempos esses em que também éramos pioneiros de uma revolução cujo significado aquelas nossas cabeças tão pequenas desconseguiam de alcançar. Mesmo sem ir à escola, o Joshua era das pessoas mais inteligentes que eu conhecia. Sabia coisas da História, do Estudo do Meio, da Geografia e ainda sabia melhor a tabuada do que o Marcelo, Gideão, Marley e eu, mais do que todos nós juntos.

– Hoje mesmo bateste o recorde de chegar cedo… – o Joshua aparecia sempre assim, como quem não quer nada.

– Ainda bem que apareceste… estavas a onde, então? – os meus olhos ficavam acessos de felicidade sempre que o Joshua se aproximava.

– Estava mesmo aqui, a olhar para ti e a pensar já nessa tua tristeza porque o almoço era isca com massa branca – disse em tom de quem queria brincar com a situação.

O Joshua conhecia todos os meus gostos. Eu tentava conhecer os gostos dele também, mas era muito difícil: dizia que gostava de tudo que eu trouxesse para ele mas, às vezes, eu achava que era só simpatia. A forma dele de comer as comidas era a parte mais estranha. Dizia que comia com os olhos, e era mesmo verdade porque a comida que eu guardava para ele não desaparecia, mas ele dizia que já tinha comido e descrevia mesmo bem os sabores das comidas todas. Quando fôssemos à praia, o Joshua achava que o mar “estava a vir” sempre que uma onda mais forte chegasse à beira-mar. Eu gozava dele mas ninguém sabia do que se tratava e todos até já pensam que eu estava a ficar maluco. Aí o Joshua punha-se a rir também, mas parecia que ninguém conseguia ouvir as gargalhadas engraçadas dele: era como se eu fosse o único que conseguia ver o Joshua.

Foi por causa dessa coisa de ninguém conseguir ouvir as gargalhadas do Joshua que eu comecei a falar baixinho com ele. Mas estás a falar, assim, como criança, porquê? ele não gostava nada daquele tom silencioso, acho que isso lhe lembrava o medo. Eu não sabia quais eram os medos que ele tinha. Mas gostava de lhe falar dos meus: da escuridão e das histórias feias da guerra que os mais velhos gostavam sempre de contar nos almoços de fim-de-semana. O Joshua ouvia, atento, essas histórias com cara de quem não tem medo do passado e ria-se dos exageros nas reações dos meus primos, sempre que o papá dizia que naquela altura todos os rapazes tinham que ir lutar nas matas, não importava a idade nem nada. Até as crianças podiam mesmo ser combatentes pela paz e pela liberdade.

O motivo que me fez querer ir para casa com aquela pressa toda foi algo que também espantou o Joshua quando, finalmente, lhe contei. Nem o Marley, nem o Marcelo, nem o Gideão, nem já o SenhorSepúlveda iam acreditar se eu lhes dissesse o que tinha visto naquela quarta-feira de manhã. Eu gostava mesmo de contar essas histórias, assim meio polêmicas, com todos os detalhes para não me escapar nada, mas acabava sempre por esquecer de alguma coisa ou de aumentar outra. Mas dessa vez contei mesmo só aquilo que vi: um leão nervoso a passear, às 7h30, pelo telhado de umas casas por detrás da nossa escola.

– Mas era leão mesmo, leão tipo o Rei Leão dos filmes da Disney? – o Joshua ainda perguntou só para confirmar.

E eu disse que sim: vi mesmo com esses meus dois olhos que lhes estavam a olhar – Deus não me deixa mentir – não era gato vadio gigante, era mesmo um leão que eu vi a andar, com a cara trancada, nos telhados das casas de chapa que fazem fronteira com o campo de jogos da nossa escola. Tudo aconteceu mesmo naquela manhã; eu ainda olhei de lado para ver se tinha lá mais alguém a ver o que eu estava a ver, mas por sorte, ou puro azar, não estava lá mais ninguém. Os meus amigos estavam todos no pátio da escola porque era a hora da parada antes de entrarmos para a sala de aulas. Antes da entoação do hino nacional eu pedi à Cama-professora-Gaby para ir à casa de banho porque estava mesmo bem apertado. Não sei como é que ela me deixou ir porque quase nunca ela deixava – achava que “ir à casa de banho” era uma desculpa que nós inventávamos para fugir o momento de cantar o hino e ir brincar com a água na casa de banho. Eu nem sequer gostava do cheiro das casas de banho da escola, que era de criolina pobre, mas era sim verdade que brincávamos com a água da torneira e saímos de lá todos molhados. 

– Mas e chegaste a dizer alguma coisa ao leão?

– Eu? Nem pensar… estava cheio de medo!

– Medo de quê se é leão da cidade, leão domesticado?

– Mas, oh Joshua, tu achas mesmo que existe leão domesticado?

– Sim, sim, eu acho mesmo isso. Nunca ouviste falar do Hoji-Ya-Henda?

– Esse mais é quem, Joshua? – perguntei, assustado.

– O Hoji-Ya-Henda era um leão domesticado da cidade que andava por Luanda, de dia e de noite, e que ninguém tinha medo dele. Até as crianças daquele tempo brincavam com ele e faziam carícias na juba grande. Diziam que dormia ao lado dos prédio dos seguros, na Marginal, e que gostava de olhar a cidade por cima do topo dos prédios. Era um leão do amor. 

***

O Joshua também ficava dias e dias sem aparecer. De tão perto, a distância cavava um buraco cheio de escuridão. Nestes momentos eu ficava apreensivo, como se precisasse de um mapa-mundo para encontrar o amigo que todos juravam não conseguir ver. Nem já o SenhorSepúlveda que várias vezes deu boleia ao Joshua, sempre que me levava à escola ou à natação, conseguia reconhecê-lo ou falar com ele. Depois de um tempo, eu deixei de me importar muito com isto. Para mim bastava a amizade que eu tinha com o Joshua. Era o meu melhor amigo – isto nem o Marley, nem o Gideão, nem o Marcelo podiam saber – a quem eu dizia quando o meu coração batia por uma menina ou por um rapaz, ou com quem partilhava os segredos da nossa infância, como aquele leão nervoso que vi nos telhados daquelas casas amontoadas.

Com o passar do tempo, as brincadeiras depois das aulas iam ficando mais lentas. À medida que íamos crescendo, e as nossas vozes ficando mais grossas, a agenda do quartel dos generais pela solidariedade anti-castigos ia se alterando espontaneamente. Algumas brincadeiras iam perdendo a graça e começaram as conversas dos namoros da puberdade. O Marley gostava de olhar bem nos seios das meninas e dizer algumas coisas dos mais velhos. O Marcelo, o Gideão e eu éramos mais tímidos: olhávamos, mas não dizíamos, pensávamos calados. Na escola, fizemos novos amigos e ganhamos outros inimigos. Era como se o tempo não esperasse por nós – nem pelas alegorias que criamos durante as brincadeiras e as longas horas de conversas infinitas. Mas havia coisas que não mudavam. O SenhorSepúlveda, com aquele bigode de xerife, continuava o mesmo, pontual por excesso e com um olhar de silêncio de quem não vê as coisas da vida.

Quando uma vez ganhei coragem e perguntei ao SenhorSepúlveda se ele já tinha ouvido falar do leão Hoji-Ya-Henda, ele não conteve as palavras para descrever a vida desse leão que, afinal, foi animal doméstico comum em Luanda. O Hoji-Ya-Henda era mesmo um leão do amor, amado por todos os kaluanda e esquecido durante os conflitos que tomaram a cidade depois da euforia da independência. O SenhorSepúlveda diz que se lembra mesmo bem desse leão: tinha cara de nervoso, mas não fazia mal nem a uma mosca. Os donos dos restaurantes na baixa de Luanda até guardavam comida para ele e as crianças d’quele tempo davam tudo para irem à Ilha do Cabo onde ele gostava de desfilar aos fins-de-semana.

Glossário

Armados – Convencidos; pessoas que se acham superiores aos outros.

Babete – Mentira; conversa falsa.

Batoteiros – Pessoas que fazem batota; trapaceiros, especialmente em jogos ou brincadeiras.

Guleiros – Miúdos viciados em jogos e brincadeiras. Termo antigo e tipicamente luandense, usado para descrever alguém que passa o tempo todo a jogar ou a brincar.  Ex.: “Tu és muito guleiro, estás sempre a chegar bola!”

Israel Campo, Fotografia de Daniel Mordzinski.

Israel Campos (Luanda, 2000) é um escritor e jornalista angolano cuja obra explora a memória, a história e o ativismo político juvenil. É autor do romance E o Céu Mudou de Cor (Kacimbo, 2023), que foi apresentado em eventos literários em Angola, África do Sul, Portugal e Reino Unido, incluindo o Correntes d’Escritas, um dos mais importantes festivais literários de Portugal. Campos iniciou a sua carreira nos media aos 12 anos, como jovem locutor na Rádio Nacional de Angola.

Em 2025, venceu a 43.ª edição do Prémio de Literatura Juvenil Ferreira de Castro com o conto A Última Gota, após ter recebido uma menção honrosa na edição anterior. A sua próxima coletânea, Baloiço de Memória, venceu a 2.ª edição do Prémio Literário Imprensa Nacional/Casa da Moeda e será publicada pela INCM. Em 2024, foi selecionado para o CANEX Creative Writing Workshop, em Aburi, no Gana — uma residência de 15 dias orientada por Chimamanda Ngozi Adichie, que reuniu escritores africanos emergentes de todo o continente.

Também jornalista, Campos tem colaborado com meios de comunicação internacionais como a BBC, a Voice of America, a Al Jazeera e o Wall Street Journal, cobrindo política, alterações climáticas e atualidade em Angola. Em 2024, recebeu o Prémio Liberdade de Imprensa do Sindicato dos Jornalistas Angolanos pela sua reportagem investigativa As Viúvas da Seca de Angola, publicada pela VOA. O seu trabalho jornalístico também lhe valeu o EU GCCA+ Youth Award pela narrativa sobre o clima, além de ter sido finalista do Free Press Award internacional e do Amnesty Media Award em 2022.

Residente no Reino Unido, é atualmente doutorando em Media e Comunicação na Universidade de Leeds, onde investiga a história pós-colonial do jornalismo angolano. Continua a escrever ficção paralelamente ao seu trabalho académico e jornalístico.