Simone Bacelar: Poemas de: “O idioma das sombras”


1.

Na jaula, feras famintas,
jaz o mistério insondável
onde o domador ousa entrar,
desafiando a própria sorte.
Coragem, arrojo,
não existe respeito
a fera urbana é
predadora
e o passado ainda ecoa,
quando as bestas
devorarem
não só o chicote
e a carne,
mas também sua fé.

2.

Ofereça-me alguma coisa entre
calar e um terno olhar.
Qualquer coisa que eu desconheça…
coisa simples: um amor bijuteria.
Não me encare com espanto…
Como se desejasse que eu ouça
que há inúmeras palavras silenciosas
sob a superfície do que me diz.
Seja breve e cortante.
Dê-me o conforto de uma
lâmina afiada nas costas…
e uma traição serena.

3.

Rima pobre sobre a minha morte
não dite suas regras
elas não me vestem bem,
miro a estrada e traço
sou liberdade e encruzilhada
faço a escolha do meu tempo e passo.
Não releve a minha cisma
não preciso da sua aceitação,
me desdobro em várias outras
dou a cara a tapa e revido
coragem, para que outras roupas?
Na esquina eu não te espero
a vingança é ledo engano
seu abismo é a inverdade
de se achar platina, raro
na caldeira é só pirita, estanho.
A indiferença é a madrinha
escolhida para te consagrar,
sacerdotes, capelães
testemunhas da morte…
que não tarda a me levar.

4.

Lição

Há dias em que o mundo se desenrola
como um novelo esquecido na sala,
os fios confusos, presos nos pés da mesa
e a gente tenta desenredar sem cortar.
Minha avó dizia:
“desate com paciência, ouça o fio.”
Eu, apressada, puxava tudo
e o nó ria de mim, gordo de teimosia.
Hoje, ao cozinhar feijão,
ouço minha avó na água que ferve:
“tem que esperar o cheiro subir.”
E lembro do novelo.
A lição é lenta,
um degrau de cada vez,
como rezar Pai Nosso devagar,
sentindo cada palavra
segurar a alma nas mãos.
A vida ensina, mas não explica,
como quem dá um livro e diz:
“leia.”
E a gente lê com as mãos tremendo
e grifa com o coração.
Ainda há nós que não desfiz.
Mas aprendi que, às vezes,
é o nó que segura o mundo no lugar.

5.

Outro dia qualquer

Acordei com a cabeça pesada,
o sol atravessava a janela como uma lâmina
enferrujada.
O mundo lá fora gritava
trabalhe, sorria, funcione.
Mas a mente tem seus próprios becos escuros,
ruas sem saída onde os pensamentos vagam
como cães magros atrás de um osso invisível.
“Levante-se”, digo para mim mesma.
“Você consegue.”
Mas o corpo é um saco de areia molhada,
e a mente, um rádio quebrado chiando estática.
Os remédios alinham-se na prateleira,
pequenos soldados de guerra química.
Alguns dias eles vencem,
outros, eu sou refém do silêncio,
da cama, do teto e seu ventilador barulhento.
Ninguém entende direito,
“é só sair para tomar um ar”, dizem.
Como se o ar não estivesse poluído
por pensamentos que não se dissipam.
A verdade é que todos nós estamos doentes,
de alguma forma,
uns com um nó na garganta,
outros com um buraco no peito.

Simone Bacelar

Simone Bacelar nasceu em Salvador/ Bahia/Brasil. Jornalista e doutora em Comunicação, viveu entre redações e projetos culturais antes de assumir a poesia como território de confronto. Sua escrita é crua, ácida, sem concessões. Poesia que não pede licença e não oferece consolo.

Seu primeiro livro de poesia, O idioma das sombras, é um convite ao desconforto: versos que mordem, ardem e continuam falando mesmo depois da última página.