João Freitas Mendes: Barra Azul

Fosquices são aldrabas. Aldrabas são taramelas. Taramelas são trincos. Trincos são fechaduras. Fechaduras são ferrolhos. Ferrolhos são calhandras. E calhandras são abetardas. 

Quando nasci havia páginas amarelas. Procurava-se o nome da Sandra e havia um número mirolho riscado com afinco numa ligação que tarda.

Vidro fosco falso diz que dá e tira e depois finge que se admira e que pede em troca: é soez. Ora vamos lá começar (outra vez) por acabar com ferrolhos de velha e toda a taramela de viés. 

Pum. Um disparo no ignaro da calhandra: mentira que à falta de voar…

não anda.

João Freitas Mendes:

Nado em Coruche com avós que não sabiam ler. Miúdo precoce paga tributo à vida. Bom pé esquerdo, sabe cantar e exprime-se com liberdade. É míope e vê muita coisa errada. É de esquerda e não crê em deuses, a não ser que os homens contem. Lê mais do que escreve, o que lhe vale o prémio de não ser um escritor deste século. Gosta do campo em passeio, e de
marcar golos. Os governantes concederam-lhe – por mor dos livros futuros – a soberba glória de ser despedido da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Aí resistiu dois anos a plantar flores em alcatrão corrompido por mamutes violentos e usos do tempo; deu também aulas na University of London (Birkbeck College) e passou uma temporada na catedral de Frankfurt, que não recomenda. Publicou um livro sobre a noção errada de justiça dos juristas e dos tribunais portugueses, e um livro de poemas. Tem estudado filosofia e literatura, interesse prático em expansão. Há-de terminar o doutoramento na Vrije Universiteit Brussel. O segundo feito de que mais se orgulha é ter cobrado uma dívida a um polícia. Acha que os dois melhores escritores portugueses revelados nos últimos 30 anos são nada reconhecidos pela qualidade literária porque escrevem crónicas.