Vitorino Almeida Ventura: Encavalgamento

Dou-me todo por um encavalgamento. Mas nem o som de um verso. Apago tudo e escrevo até sair re_ _ _ _ _ _ re_ _ _ _ _ _ re_ _ _ _ _ _, num jacto de dopamina. Também… TAMBÉM POR QUE ME QUEREIS LEVAR A TODA A PARTE, Ó ILETRADOS? NÃO ESCREVO PARA VÓS, MAS PARA QUEM ME PODE COMPREENDER. UM, PARA MIM VALE CEM MIL, E A MULTIDÃO NADA. [Não se preocupem. Os deuses castigaram-no. Misantropo, passou os últimos anos da sua vida isolado, nas montanhas, alimentando-se somente de plantas. Quando adoeceu, atacado por uma hidropsia, Heráclito foi obrigado a voltar à cidade. Aos médicos, cujo conhecimento ridicularizava, perguntou se seriam capazes de transformar um dilúvio em seca, aludindo à sua doença. Os médicos não entenderam e acabaram expulsos pelo filósofo, que resolveu então recorrer a um curandeiro que o aconselhou a uma imersão no estrume, pois o calor faria evaporar a água em excesso no seu corpo. Foi trágico: os seus cães não o reconheceram como dono, totalmente coberto de excrementos, e comeram-no vivo. Há uma outra explicação científica: é possível também que a causa da morte tenha sido por asfixia no esterco de vaca. O historiador Nantes de Cizico afirmou que, tendo sido impossível retirar o corpo sob o esterco, lá permaneceu, nessa condição.]

Composição do microtexto linguístico: Vitorino Almeida Ventura. Texto(s): 1 – poema “Encavalgamento” de Vitorino Almeida Ventura, lido por Paulo Morgado. 2 – excerto filosófico de Heráclito (de Éfeso), lido por Vitorino Almeida Ventura. 3 – pequena nota biográfica do filósofo, por Vitorino Almeida Ventura, lida por Neto Portela. Gravação: Pedro Farate. Porto. natal de 2024.

Composição do microtexto musical: Simão Valinho. Gravação: Simão Valinho, Santa Maria da Feira, para o Natal de 2025. 

Encavalgamento: por Colectivo Poético: Activos TóxXxicos

Vitorino Almeida Ventura nasceu no Porto, em 1962. Aprendeu ritmo e poesia com o seu tio paterno. Colaborou com o jornal Comércio do Porto e publicou em fanzines e suplementos literários. É licenciado em Literaturas Modernas, com especialização em Estudos Portugueses e Direito. Frequentou o Curso de Composição do Conservatório de Música do Porto. Formou o grupo U Nu, com o qual editou o álbum A Nova Portugalidade, considerado um dos álbuns do ano pelo jornal Público. Integrou também a banda Falo Quente, vencedora do Prémio de Melhor Letra no Festival de Rock Luso-Galaico, em 1988.

Publicou vários livros desde 1989 e participou com texto e voz na composição 50 Anos do 25 de Abril, da editora Anti-Demos-Cracia. O seu trabalho artístico, poético, musical e performativo é marcado por grande originalidade e intensidade. Os textos poéticos aqui publicados são também letras dos projetos U Nu e Falo Quente.

A sua bibliografia e discografia incluem as seguintes obras:

1989
Da Cidade e Deste Corpo – Vitorino Almeida Ventura – Livro (Brasília Editora, PT)

1994
A Nova Portugalidade – U Nu – CD (Numérica, PT)

1998
Memórias de Ansiães (Vol. 2) – Vitorino Almeida Ventura – Livro (audEo, PT)

2000
Oficina de Letras: Selecção de Textos e Comentários – Carlos Tê, Manuel Cruz, Regina Guimarães & Vitorino Almeida Ventura – Livro (Clube de Língua Materna, PT)
Point Of Yucca volume three – U Nu + V/A – CD (Yucca Tree Records, CH)

2002
Offfffficina de LEtras 2: Selecção de Textos e Comentários – Vitorino Almeida Ventura (coordenação), Sérgio Godinho, Jorge Cruz & João Paulo Simões – Livro (Clube da Rádio, PT)

2006
As Letras Como Poesia – Vitorino Almeida Ventura – Livro (Objecto Cardíaco, PT)

2007
Crónicas de Sancho Pança – Vitorino Almeida Ventura – Livro (Afrontamento, PT)

2014
O Uivo da Matilha: Tributo a António Sérgio e à Rock’n’Roll Radio – Vitorino Almeida Ventura + V/A – Livro + DVD (Edições El Pep, PT)

2022
Falo Quente – Falo Quente – CD (Pós-80’s, PT)

2024
50 anos – 25 de Abril – Vitorino Almeida Ventura + V/A – compilação em formato digital e de download gratuito (Edição Anti-Demos-Cracia, PT)
A Nova Portugalidade 2.0 – U Nu – CD (Pós-80’s, PT)