VENDETTA
Silvana Guimarães
/ Preâmbulo /
Três dias depois do choque, Alfredo, o venerável comerciante de antiguidades de Veneza, continuava atordoado.
Aonde fui pendurar meu morcego?
Acostumado a circular entre os becos ensolarados da cidade, sabia que os segredos do passado sempre voltavam para assombrar aqueles que ousavam desafiar a luz.
Ousava. Não se distraía, entanto, de alguns lugares que lhe poderiam causar encrencas: cemitérios, restaurantes de comida a alho, espelhos.
Mas, mamma mia!, foi no café do Hotel Palazzo Veneziano, próximo à Ponte Lungo — onde fingia mangiare nas manhãs de domingo —, que ele conheceu Ludovica. A virgem dos lábios carmins.
Celebrou aquela visão do ser humano de tez imaculada, pálida, quase translúcida, olhar enigmático & intrigante, corpo esguio, curvas suaves, misteriosa, glamourosa & outros tantos predicados.
Cedo ainda e já ganhara o dia.
Antes, trançara suas pernas na Scuola Grande de San Rocco, de olho nas obras de Tintoretto & Tiziano, que almejava em vão.
Quer dizer, embaralhou-se com a donna casta pelo mapa local. Mais tarde, confundiriam seus corpos em um dos quartos do hotel.
Alfredo empenhou-se naquele encontro como um bardo arrebatado.
Ignorava, decerto, que no mundo dos vampiros modernos, o amor e a luxúria são tão perigosos quanto o próprio abraço da noite.
Na hora H, ouviu, de muito longe.
“Dois bicudos não se beijam”.
Era tarde.
A boca dela foi fatal.
/ Bastidores /
Ludovica. A virgem dos lábios carmins. Branca como o luar, olhos de abismo, sombrios, cenho cerrado, memórias de dor & solidão. O coração furioso era o poço da saudade de séculos antes. Professora no Liceo e Società Musicale Benedetto Marcello. Levava a vida na flauta.
Naquela manhã, circulara pelos labirintos de Veneza, espiando as bijuterias e o artesanato que atraíam os turistas a San Polo. Haveria de completar os berenguendéns da corrente em volta do pescoço. Longo, rígido, perfeito.
Parou na vitrine da La Maison de La Sireneuse, onde dois dentinhos de javali se ofereciam, duvidosos.
O javali é o antepassado do porco atual. Mamífero de corpo robusto, pode chegar a 1,80 m de comprimento e a 1 m de altura.
A fêmea do javali é a javalina.
Aonde vou pendurar meu souvenir?
Escolheu uma figurinha para responder a uma mensagem no celular. A bateria estava acabando.
Depois, foi até a Basílica de Santa Maria Gloriosa dei Frari, para não perder o costume de desfeitear Deus.
“Os humanos, Todo-Poderoso, creem ser a Sua cópia fiel. Racistas, misóginos, homofóbicos, cruéis. Tra l’altro di più”.
Va bene, la donna è mobile. Sem meias palavras, colecionava rancores & amarguras, irascível, empedernida, gelada, virgem, incapaz para o amor & outros tantos predicados.
Ex-humana.
Mas adorava beijar.
Decidiu ir a pé ao Hotel Palazzo Veneziano, onde as manhãs de domingo cintilavam e realçavam a transparência de sua pele.
Ali, aterrissou o olhar nos olhos de Alfredo. Mais fulminante que o infarto que matou Lucio Dalla.
Fagulhas coloriram o ar. Há quem diga que ouviu rojões.
Naquela hora, um piano e a voz rouca de Riccardo Cocciante esparramavam a triste Era Già Tutto Previsto pelo lugar.
/ Epílogo /
Foram de pouca conversa.
Cara mia, non abbiamo tanto tempo.
E arriscou seu madrigal repentista, de inspiração brasiliana, senza dubbio:
Sono gli migliori bocconi:
carne pesce maccarrone
vino rosso acqua pura
stretta figa pica dura
Ele me suga. Eu sigo. Suga. Sigo. Persigo. Sanguessuga.
Ela me suga. Sigo. Persigo. Perigo. Sanguessuga. Castigo.
Sua cabeça entre minhas coxas.
Suas coxas: um inventário de veias azuis, roxas, lilases.
Embolados. Esfrega-refrega. Refrega-esfrega. Gozo consolado.
Sinfonia inacabada de peixes, algas, lesmas, orvalhos. Tudo que umedece.
Até o beijo.
Com um chupão quase mortal, Ludovica extraiu-lhe o canino superior direito. De estimação. O mais forte.
Ecco qua!
Abobado, o honorável Alfredo anda se perguntando pelo menos uma vez ao dia, impotente:
“Onde foi que eu errei?” / “Que mal eu fiz a Deus?”.
Ludovica, a inconcebível virgem dos lábios atrozes, foi vista, dia desses, alimentando os pombos da Piazza San Marco. Em seu colar de penduricalhos, um dente de javali reluzia, imponente.
Sorria.

Silvana Guimarães. Escritora, nascida em Belo Horizonte/MG, onde vive. Formada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais, foi pianista e especialista em transporte público. Editora da Germina — Revista de Literatura & Arte e do coletivo Escritoras Suicidas. Revisou e organizou incontáveis livros de poesia alheios, com destaque para Poesia reunida [1966-2009], de Maria do Carmo Ferreira, coorg. Fabrício Marques (Goiânia: martelo casa editorial, 2024, Prêmio Academia Mineira de Letras 2025). Participou de várias antologias poéticas brasileiras e estrangeiras. O corpo inútil (no prelo) é o seu primeiro livro de poesia.
