III.
pus a mesa no meio do quintal
Molembu se chamava a roça regada com sangue
de meus antepassados
invoquei os meus mortos
os espíritos todos que me antecederam
chegaram primeiro os oriundos do sul do Sahara
do Gabão, da Libéria, da Mina
outros vieram das ilhas áridas
outros das terras de D´jinga
e outros ainda para lá do Índico
união de muitas raças e credos e danças
fado, marrabenta, puíta, manipuri
festa orgíaca que Sum Tômachi, o curandeiro
se comprometeu a montar
por fim vieram alguns do ocidente
lívidos e trémulos como a branca neve
do seu longe
como o minuete de suas danças de salão
e o choro da guitarra e da viola
a mesa estava posta
iguarias atapetavam o robusto tronco de mampiam
que há muito alguém retangulou
e os espíritos todos provaram e se deliciaram
cozido de banana, molho no fogo
vuadô travessá, pescada com todos
angu, d´jógó, cozido à portuguesa
cachupa, funge, muamba,
arroz doce, canjica, paracuca
e os acepipes eram por todos subejamente conhecidos
cafukas arderam até à exaustão da luz
tremelicaram vozes em cânticos hossãnicos
em uníssonas línguas que se enovelaram felizes
e a torre de Babel ergueu-se una e majestosa
num pedaço de chão esquecido dos deuses
minha avó Dua espelhou seu rosto de água
em meu ombro anguloso e ressequido
e feliz adormeceu
IX.
pedra a pedra reconstruí o muro
ergui o poema
harmonizei a voz
plantei buganvíleas cor-de-sangue
cor-de-fogo
cor-de-vida
pedra a pedra reconstruí o muro
ergui o poema
harmonizei a voz
plantei maracujás cor-de-esperança
cor-de-martírio
cor-de-sonho
pedra a pedra reconstruí o muro
reconstruí o poema
reconstruí a voz
e ergui o sangue
o fogo
a esperança
a vida
frágil o mar o sonho a utopia
a nossa emergência transparente de viver
frágil a sombra do ôka
a fiá gleza
as plantações
café cacau
frágil o caminho que leva à verde casa
frágil a mãe que ergue o dumo da coragem
e ergue o rio em sua voz magoada
e ergue a encosta crivada de matabala
e desce a foz de seus passos
e enlaça o corpo todo
no sangue rubro das acácias
frágil o som da nossa voz
o ténue abraço que nos separa do amanhã
a hibridez de nossa pele nossos costumes
frágil a enseada onde aportam
as jangadas de todas as raças
não sei se sabes mas pertenço ao sul
ao lugar onde as palmeiras se inclinam ao poente
pertenço aos areais e às conchas nacaradas
que tatuaram em mim
a tua húmida imagem
não sei se sabes mas pertenço ao sul
aos pés esguios das níveas garças
resquícios da minha outra identidade
pertenço ao sul onde os amantes se desnudam
como as pedras em seu cio
e a amurada de meu peito há de suster
ventos marés tornados e desejos
XV
partirás também um dia rumo ao sul
salmodiarás os pontos cardeais do teu sentir
dormirás com as estrelas do Cruzeiro
a Rubídea, a Pálida, a Intrometida.
trarás folhas e flores
em teus crespos cabelos fortes e errantes
a verdejar de vida
despido de tabus entregarás ao sul
a herança de árias de Mozart e Chopin
dançarás puíta e Kilêlê
em salões de floresta jamais vistos

“Olinda Beja é poeta e narradora de São Tomé e Príncipe. Porém, com apenas dois anos e meio, saiu de seu país e foi viver em Portugal. Sendo tão pequena, não foi responsável pela mudança de território e muito menos pela história que lhe foi sequestrada. Sua poética traz as marcas dessa vivência e as tentativas de reconstruir, ou construir ao seu modo, a identidade. Ao mesmo tempo, a escritora celebra, na tensão entre os dois mundos, África e Europa, a festa da mestiçagem e o encontro de culturas. Olinda Beja venceu em 2013 o maior prêmio literário de São Tomé e Príncipe, o Francisco José Tenreiro, pela obra “A Sombra do Oká”. É esta a inquietante e também dramática biografia de Olinda Beja.” – Texto de Estella Viana, jornalista brasileira ao serviço da RTE – Feira do Livro/Madrid/junho 2017.
Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas (Português/Francês) pela Universidade do Porto, e em Literaturas Africanas pela Universidade Aberta, Diplomada pela Alliance Française em Hautes Études Françaises Modernes (Coimbra/Paris) possui ainda Formação Superior (na Suíça) em várias áreas de carácter cultural.
Docente do Ensino Secundário desde 1976 a 2005 em Portugal, lecionou Língua e Cultura Portuguesas e Lusófonas na Suíça em vários colégios e na Universidade de Friburgo de 2005 a 2015, tendo mantido também neste país a sua atividade de dinamizadora cultural promovendo aí as ilhas onde nasceu e fazendo junto aos alunos peditórios de material didático e cultural para as crianças de S. Tomé e Príncipe. Percorre o mundo a fazer conferências, a contar histórias e a dizer poesia deixando assim bem gravado nas mentes de quem a ouve o nome de S. Tomé e Príncipe . Através das suas obras muitos milhares de pessoas já visitaram as ilhas. Divulga assim a Língua e a Cultura Portuguesas e Lusófonas.
Olinda Beja tem uma vasta obra publicada (25 obras (22 dedicadas à ilha e ao povo de S. Tomé e Príncipe – mais duas infanto-juvenil no prelo em português/santomé) entre poesia, romances, contos, e infanto-juvenil a maior parte dedicada à difusão da cultura e da vida do país onde nasceu e ao qual tem dedicada mais de 3 décadas de vida literária. Além de escrever e divulgar pelo mundo a Língua Portuguesa, as suas histórias e poesias são também “enfeitadas” com a língua materna de S. Tomé para que fique bem esclarecido que o nosso crioulo-forro tem mais de cinquenta por cento de origem na Língua Portuguesa. As suas obras têm sido objeto de estudo e de trabalhos de docentes e discentes em várias escolas secundárias e universidades nomeadamente no Brasil, Inglaterra, Alemanha, Hungria, França, África do Sul, Rússia, Argentina, Angola, Marrocos, Estados Unidos, Suíça, Cabo Verde e Luxemburgo. Tem contos, poemas e um romance traduzidos para várias línguas (espanhol, francês, inglês, alemão, italiano, mandarim, japonês, russo, árabe, grego, húngaro e esperanto).
Detentora de vários prémios literários, de distinções e de homenagens, os seus livros “À Sombra do Oká” (poemas) e “Um Grão de Café” (infanto-juvenil) fazem parte (em Portugal) do Plano Nacional de Leitura – Ler+ por um período de 10 anos.
Em novembro de 2023 dois grandes encenadores de teatro (um inglês -Graeme Pulleyn e outro brasileiro – Márcio Meirelles) puseram em cena a peça “Esse Caminho Longe” baseada na sua vida entre dois continentes. Teve estreia no dia 4 de novembro na cidade de Viseu onde ficou por mais 6 dias com apresentações diárias para escolas. Seguidamente apresentou-se em várias cidades deste país culminando com uma apresentação estrondosa em Lisboa na UCCLA. Em 2024 foram feitas tournées em S. Tomé e Príncipe, Portugal(em várias cidades com sessões também para as escolas) e Brasil.
